Estratégias de negociação para imóveis com cláusulas de usufruto gravadas na matrícula

Estratégias de negociação para imóveis com cláusulas de usufruto gravadas na matrícula

Recebi uma ligação de um cliente que parecia ter encontrado o negócio da vida dele: um apartamento impecável, em um bairro nobre, com um preço 30% abaixo do valor de mercado. A empolgação, no entanto, durou até o momento em que ele solicitou a matrícula atualizada do imóvel. Lá, bem destacada, estava uma cláusula de usufruto vitalício. Ele me perguntou se aquilo era um sinal vermelho absoluto ou se ainda havia margem para manobra. A resposta curta é que não se trata de um impedimento, mas de um cenário que exige estômago e, acima de tudo, estratégia.

A anatomia do usufruto na transação

Para quem não está familiarizado, o usufruto é um direito real que permite que uma pessoa (o usufrutuário) utilize e receba os frutos — como o aluguel — de um imóvel que pertence formalmente a outra pessoa (o nu-proprietário). Quando você compra um imóvel com esse gravame, você está adquirindo a nua-propriedade. Na prática, você é o dono do papel, mas não pode entrar, morar ou alugar o espaço sem o consentimento ou a renúncia do usufrutuário.

O erro que vejo muitos investidores cometerem é ignorar a figura humana por trás desse documento. O usufrutuário não é apenas um entrave jurídico; é alguém que possui o direito de habitar aquele local até o fim da vida. Se o seu objetivo é comprar para morar imediatamente ou para alugar sem restrições, a negociação precisa girar em torno da extinção desse direito antes mesmo da assinatura da escritura.

Estratégias de negociação direta

Quando analiso casos assim, costumo sugerir três caminhos para meus clientes. O primeiro e mais eficiente é a negociação para a renúncia onerosa. Muitas vezes, o usufrutuário é um idoso que deseja liquidez para cobrir gastos médicos ou ajudar familiares. Ao oferecer um valor justo pela baixa do usufruto, você limpa a matrícula. O segredo aqui é que esse custo, muitas vezes, ainda deixa o valor final do imóvel abaixo do preço de mercado. É uma conta de soma simples que pouca gente para para fazer.

Outra abordagem, caso a renúncia não seja possível, é a negociação baseada na projeção de valorização. Se o imóvel está ocupado por alguém que não tem intenção de sair, o preço deve refletir essa limitação de uso. Você pode propor um valor de compra muito mais agressivo, tratando o imóvel quase como uma reserva de valor de longo prazo. O vendedor, que muitas vezes é o nu-proprietário precisando de dinheiro, acaba aceitando o deságio para não ter que lidar com o inventário ou com a gestão do usufrutuário.

Veja detalhes

Sempre exija o cancelamento do usufruto no ato da escritura;

Avalie se o usufrutuário tem condições de saúde que tornem a vacância provável a médio prazo;

Tenha um advogado especialista em direito imobiliário para redigir cláusulas de contingência, caso o usufrutuário se recuse a sair após a venda.

O peso da diligência jurídica

Não tente economizar com um bom despachante ou advogado imobiliário nesse momento. Já vi transações onde o comprador assume o risco de “negociar a saída” depois da compra, apenas para descobrir que o usufrutuário não reconhece o novo dono ou, pior, que existem dívidas de IPTU e condomínio que o usufrutuário não pagou durante anos. Como o imóvel responde pela dívida, a dor de cabeça é sua, não dele.

Negociar imóveis com gravames não é para amadores. É uma arte que mistura paciência com uma leitura fria de riscos. Se você tiver a disposição para encarar a burocracia e a sensibilidade para tratar com o usufrutuário, pode encontrar excelentes oportunidades onde o mercado comum vê apenas um problema insolúvel. O segredo não é fugir da matrícula suja, mas saber como limpá-la antes que o dinheiro saia da sua conta. No final das contas, o lucro imobiliário reside exatamente na capacidade de resolver problemas que outros preferem ignorar.